Um casamento curdo

Antes de viajar para o Irã, eu já tinha ouvido falar muito sobre a hospitalidade persa e que se o turista tem sorte, pode até mesmo ser convidado para um casamento, mesmo sem conhecer muito as pessoas. E foi bem isso que aconteceu comigo lá 😉

Faltava uma semana para terminar minha viagem pelo Irã e eu estava no Curdistão, uma região que sempre quis conhecer.

Quem são os curdos?
Esse grupo étnico está em sua maioria dividido em 4 países do Oriente Médio: Irã, Turquia, Iraque e Síria. Também há curdos na Armênia e no Azerbaijão.

Curdo da região de Sanandaj
curdos
Roupa típica curda

Os curdos têm seu próprio idioma e o seu objetivo é um dia formar um país independente. Calcula-se que há cerca de 26 milhões de curdos no mundo, a maior nação do mundo sem estado.

Esse desejo até agora tem sido impossível. No Irã, os curdos convivem ¨amigavelmente¨ com o governo, enquanto que na Turquia há grandes problemas entre eles e as autoridades, por conta do movimento separatista.

Gente alegre e roupas coloridas
Achei os iranianos do Curdistão ainda mais simpáticos do que no resto do país, se é que isso é possível. Eu fiquei hospedada na casa de uma família do CoachSurfing e uma amiga dessa família, a simpática Sara, fez questão de me levar para passear pela cidade de Sanandaj e me perguntou se eu podia ficar mais um dia na cidade para ir no casamento do seu primo.

Eu fiquei tão entusiasmada com o convite que mudei a minha passagem de ônibus e fiquei mais um dia. Só pedi uma coisa, que ela me emprestasse um vestido porque eu não tinha nada mais arrumadinho na minha mochila hehe. ¨É claro que eu te empresto. Tenho uma mala cheia de vestidos curdos e você pode experimentar todos¨, a Sara me disse sorrindo.

Quando a gente começou a se arrumar, a Sara abriu uma mala grande e começou a tirar vários vestidos de tule bordados, lindos, mas eram muito pesados para o meu gosto. Além disso, fazia um calor insuportável e eu sou uma pessoa que suo bastante.

Comecei a experimentar alguns e achei que não ia aguentar passar a noite com aquele traje: uma calça tipo bombacha, justa na parte debaixo da perna e um vestido longo todo bordado. Acho que a Sara adivinhou meu pensamento e tirou do armário um vestido verde super bonito, do estilo que usamos no Brasil.

A animada Sara e eu, prontas para a festa

– Mas você tem certeza que posso ir assim? Não é muito curto?
– Claro que pode. Esse vai ser um casamento misto. Os convidados vão com vestidos curdos, outros com vestidos de festa normal e outros com roupa até o joelho. Acredita em mim.

Fiquei meio ressabiada mas decidi acreditar nela. Quando cheguei na festa, realmente percebi que a Sara tinha razão e tinha vestido de tudo quanto era jeito. Algumas mulheres usavam uns super chiques e a maioria delas estava sem o véu.
 
– Sara, por que elas não estão cobrindo o cabelo? Não é obrigatório aqui no Irã?
– Ah, não se preocupe, esta é uma festa particular, não precisa. Só as mulheres mais religiosas mesmo preferem não tirar o véu.

Era um lugar aberto, ao ar livre. Quando entramos já tinha gente dançando na pista. Os curdos são muito animados e dançam de mãos dadas formando uma longa fila. Chacoalham um pouco os ombros, mas o segredo está no pé. O primeiro da fila é o líder e o resto deve seguir o mesmo movimento dos pés.

Eu tentei várias vezes, mas não consegui nem sequer disfarçar hahaha. A Sara me contou que as crianças aprendem esse tipo de dança nas festas mesmo ou em academias de baile.

Em um determinado momento fomos chamados para o jantar em um espaço que estava ao lado. Sentamos em messas longas e serviram arroz e kebab de carne e frango, água e coca-cola.

Depois do jantar, voltamos para a área principal onde tinha música ao vivo. Mais tarde trouxeram esses pãezinhos doces, algumas frutas e pepino! Eu achei bem diferente e chamou muito a minha atenção ver o povo comendo pepino com a mão em um casamento.

Enquanto isso, o baile continuava super animado e depois de 2 horas é que os noivos chegaram. Ou seja, eles não comeram lá. Isso também me chamou a atenção e eu contei pra Sara que no Brasil os noivos comem junto com os convidados.

Quando eles chegaram muitas pessoas fizeram uma espécie de corredor e começaram a jogar dinheiro em cima deles. Pelo que entendi, essa é uma tradição para desejar prosperidade econômica ao casal. Gostei disso hehe.

Quem quer dinheiro??

Outro costume diferente do nosso é que a cada 5 ou 10 minutos, alguém dava dinheiro aos músicos. Segundo me explicaram, essa é uma maneira de dizer que estão gostando da música e que querem que eles continuem tocando. Por isso toda hora os músicos, no meio das canções mesmo, contavam o dinheiro recebido e eu imagino que diziam algo do tipo: A família tals está dando 5000 rials e oferece esta música pra vocês!

A noite estava ótima, como a festa era ao ar livre, já não fazia tanto calor e a temperatura ficou super agradável. Assim como os outros convidados, dancei bastante, observei cada detalhe e pensar que a galera ficou dançando até às 2h da manhã na maior empolgação somente movidos a água, coca-cola e chá!! O consumo de álcool é proibido no Irã.

A Sara e uma amiga no casamento. As iranianas usam bastante maquiagem

Quando a festa terminou e as luzes se acenderam, a Sara parou do meu lado e perguntou:

– Lucila, cadê o teu véu?
– Deixei na bolsa da tua irmã.
– Ok, peraí que vou pegar.

– Toma, Lucila, você precisa cobrir o cabelo de volta.

Exatamente no mesmo momento em que comecei a cobrir minha cabeça de volta, percebi que tinha esquecido totalmente que durante essas 5 horas eu estava no Irã.

Ter participado desse casamento foi realmente uma experiência incrível e muito enriquecedora. Eu agradeço imensamente o convite e cada vez tenho mais certeza de que os melhores momentos nas minhas viagens são aqueles que compartilho com outras pessoas!!

Quer ler mais sobre o Irã? Então não perca estes posts:
Dicas valiosas sobre o Irã
O que visitar na capital do Irã
Norte de Teerã
– 11 motivos para visitar o Irã
– 10 curiosidades sobre o Irã

Participe e deixe seu comentário.